Gramática do francês de A a Z
130 temas em 21 áreas. Cada um tem um nível, uma explicação em português, frases de exemplo com tradução, a armadilha típica de quem fala português e exercícios próprios.
Como percurso, numeradoComo mapa: os tempos numa linha do tempo
Alfabeto e pronúncia
5 temas · A1Letras, sons, acento tónico.
Tempos verbais e condições
32 temas · A1–C1Presente, passé composé, imparfait, futuro, condicional, frases com si.
Conjuntivo, modais e passiva
34 temas · A1–C1Être e avoir, pouvoir e devoir, imperativo, conjuntivo, passiva, verbo + infinitivo.
Nomes, artigos e pronomes
32 temas · A1–B1Artigos, género e plural, adjetivos, pronomes (le, lui, y, en), preposições.
Pronúncia, escrita e estilo
12 temas · A1–C1Letras mudas, liaison, acentos, pontuação, c’est e il est, francês falado.
Construção da frase
15 temas · A1–B2Perguntas, negação, orações relativas, conjunções, discurso indireto.
Alfabeto e pronúncia
Alfabeto e pronúncia
5 temasO francês escreve-se com as mesmas letras que o português, e muitos sons até são teus conhecidos: o « ch », o « j », as vogais nasais. É isso que engana — achas que sabes ler e lês com a ortografia portuguesa. Muitos sons escrevem-se com duas ou três letras — ou, eau, oi —, os acentos querem dizer quase o contrário dos teus, e a sílaba forte é sempre a última. Este capítulo põe isso em ordem em cinco passos. Que terminações ficam mudas e como as palavras se ligam vem mais tarde, em « Escrita e som ».
Tempos verbais e condições
O presente
8 temasO francês reparte os verbos por três grupos, conforme a terminação do infinitivo: -er, -ir, -re. O primeiro é de longe o maior. A diferença a aceitar já é outra: *quatro das seis formas soam igual.* je parle, tu parles, il parle e ils parlent são uma só palavra ao ouvido. O português ouve as seis e por isso pode dispensar o pronome; o francês não ouve quase nenhuma e por isso não o dispensa nunca. E há uma armadilha logo na etiqueta: *-er em francês é a primeira conjugação, não a segunda.* manger, parler, travailler correspondem a « comer »? Não: correspondem a « falar » e « trabalhar ». O grupo que se parece com o português no nome é o que menos se parece com ele na conta.
O passado
8 temasA repartição entre os dois passados é a tua: o imparfait é o teu imperfeito e o passé composé faz o trabalho do pretérito perfeito. Il pleuvait quand je suis sorti é « chovia quando saí », com as mesmas duas funções nos mesmos dois sítios. O que muda é a forma e é uma armadilha logo à entrada: « saí » é uma palavra e je suis sorti são três. E a forma composta portuguesa mais parecida — « tenho saído » — quer dizer outra coisa, uma repetição que continua. Depois há dois auxiliares em vez de um, e com um deles o particípio concorda, o que em português só acontece na voz passiva.
O futuro
9 temasA perífrase é a tua, e sem preposição nenhuma: « vou partir » é je vais partir, palavra por palavra. Nenhuma outra língua de partida chega tão perto neste ponto. O futuro simples também se constrói como o teu, infinitivo mais terminações, só que com dez radicais irregulares em vez de três. E depois há o buraco: o português tem um futuro do conjuntivo — « quando chegar », « se tiver tempo » — que mais nenhuma língua românica conservou, e é justamente a forma que o francês não tem. Onde tu pões esse tempo, o francês põe duas coisas diferentes: futuro depois de quand e presente depois de si.
As orações condicionais
7 temasOs três tipos são os teus e os sentidos também. O que muda é o modo: onde o português põe conjuntivo depois de « se » — « se chover », « se tivesse », « se tivesse sabido » —, o francês põe indicativo. E há uma diferença de escrita logo à entrada: o se francês não é o teu « se ». O condicional escreve-se si, com i; se com e é o pronome reflexo. A regra que sustenta os três tipos é uma proibição: *depois de si nunca vai o condicional nem o futuro* — e uma fórmula muito corrente, au cas où, quebra-a de propósito.
Conjuntivo, modais e passiva
être, avoir e há
5 temasA boa notícia primeiro: *être faz sozinho o trabalho de ser e de estar.* Je suis allemand e je suis fatigué levam a mesma forma, e a decisão que em português se toma a toda a hora aqui não existe. Em troca, a fronteira passa noutro sítio e apanha quem vem do português mais do que a qualquer outro: *a fome, o frio e o medo têm-se com avoir*. O português diz « estou com fome », « estou com frio », « estou com medo », com estar e com uma preposição; o francês diz j'ai faim, j'ai froid, j'ai peur, sem preposição nenhuma. A idade, essa, coincide: j'ai vingt ans é « tenho vinte anos ». Ficam duas coisas novas: o artigo indefinido passa a de depois de uma negação, e há que escolher entre c'est e il est onde o português diz « é ».
Poder, dever, querer
9 temasOs quatro verbos são verbos normais, irregulares mas completos, e atrás vem o infinitivo nu: je peux venir é « posso vir ». savoir e connaître são « saber » e « conhecer », com a mesma fronteira, e il faut é « é preciso » — impessoal, invariável, com o infinitivo atrás. O que muda são três coisas que voltam em cada frase. O pronome não se cola ao infinitivo. « Não é preciso » e il ne faut pas querem dizer o contrário um do outro. E « deve ter esquecido » constrói-se ao contrário: o passado vai para o modal e não para o infinitivo.
Pedidos e ordens
4 temasO imperativo francês é o presente sem o pronome, e tem três pessoas: tu, nous, vous. Duas delas já são tuas de forma diferente. A de tu faz-se tirando um s, como em português — « falas » dá « fala » —, e o hífen que liga o pronome ao verbo é a tua pontuação, que mais nenhuma língua desta lista usa aqui. O que muda é o resto. Não há forma de cortesia à parte: vous serve para « vocês », para « o senhor » e para « a senhora ». Não há conjuntivo nenhum no imperativo, nem sequer na negativa. E a forma de nous — Allons-y ! — está bem viva, enquanto o teu « falemos » quase desapareceu.
O conjuntivo francês
4 temasO modo é o teu, com os mesmos disparadores e as mesmas conjunções. O que muda é a extensão. O português tem três conjuntivos vivos — presente, imperfeito e futuro — e o francês tem dois, e um deles quase só se lê. O futuro do conjuntivo, que tu usas todos os dias em « quando chegar » e « se tiver », aqui não existe de todo. E há duas peças a acrescentar: o infinitivo pessoal não tem equivalente, por isso um sujeito diferente obriga sempre à oração com que; e depois de um superlativo a língua cuidada pede o conjuntivo, onde o português usa o indicativo.
A voz passiva
4 temasA construção é a tua: être mais particípio, com o particípio a concordar com o sujeito. O que muda é o número de auxiliares. O português distingue « a porta é fechada » de « a porta está fechada » — a ação e o estado, com dois verbos diferentes — e o francês tem só être para os dois. E, tal como em português, a passiva é a solução menos usada: o francês prefere on, que é o teu « se » de « fala-se », e o verbo reflexo, que é o teu « come-se frio ». A diferença está em que on é um sujeito a sério e ocupa o lugar à frente do verbo.
O que vem depois de um verbo
8 temasO sistema é o teu: dois verbos seguidos, o segundo no infinitivo, e no meio nada, à ou de — como « quero sair », « começo a sair », « deixo de sair ». O que não bate certo é uma preposição que o francês não tem neste lugar: o *em*. « Hesitar em », « insistir em », « pensar em », « ficar em » não têm forma paralela — o francês põe à nos três primeiros e nada no quarto. Depois há « gostar *de* », que em francês não leva nada; « acabar de », que quer dizer duas coisas e em francês se divide em duas; e o gerúndio, que aqui não anda sozinho nem se troca pelo « a » de « estou a ler ».
Nomes, artigos e pronomes
Os artigos
5 temasO português é a língua que mais usa o artigo definido de todas as seis, e é por aí que começam as diferenças. Diz « o meu carro » e « a Maria »; o francês diz ma voiture e Marie, sem nada à frente. Em compensação o francês tem uma classe inteira que o português não tem: *o artigo partitivo*. du pain, de la viande põem-se diante do que não se conta, e o português diz « como pão » com o nome nu. E cuidado com a forma, porque parece conhecida: du não é « do ». Du pain é « pão », não « do pão ». A contração portuguesa e o partitivo francês escrevem-se quase igual e querem dizer coisas diferentes.
Os nomes
9 temasO sistema já é o teu: dois géneros, nenhum neutro, artigo quase sempre. O que muda é onde está a informação. Em português ouve-se tudo — « amigo » e « amiga », « jornal » e « jornais » distinguem-se no ar, sem olhar para a página. Em francês a marca do feminino é muitas vezes muda (un ami, une amie soam igual) e a do plural é sempre muda: aquele -s ninguém o diz. Fica tudo no artigo, e diante de vogal nem isso, porque le e la reduzem-se aos dois a l'. Há ainda uma família inteira que atraiçoa: « a viagem » e « a mensagem » são femininas, le voyage e le message são masculinos.
Os adjetivos
7 temasQuase tudo aqui já é teu. O adjetivo francês concorda em género e número e vem normalmente *depois* do nome: une voiture rouge, « um carro vermelho », pela mesma ordem. Há um grupo pequeno de palavras curtas que vai à frente — un grand jardin — e algumas mudam de sentido conforme o lugar, tal como « um grande homem » e « um homem grande ». As surpresas são três e espalham-se pelas páginas seguintes: o feminino francês faz-se com uma consoante e não com uma vogal, há três adjetivos que ganham uma forma curta diante de vogal — coisa que o português não faz —, e um adjetivo português pode trabalhar como advérbio, enquanto o francês quase nunca o deixa.
Os pronomes
6 temasÉ aqui que o português e o francês se afastam mais. O pronome átono francês vai *antes* do verbo, sempre: je le vois é « vejo-o », com as palavras pela ordem contrária. O português só põe o pronome à frente quando alguma coisa o obriga — uma negação, um advérbio, uma conjunção — e o francês faz isso o tempo todo, sem precisar de gatilho nenhum. Depois há duas palavras que o português não tem: y para um lugar ou para algo com à, e en para uma quantidade ou algo com de. Uma delas já a usas todos os dias sem dares por isso, dentro de il y a.
As preposições
5 temasAs preposições não se traduzem: aprendem-se coladas à palavra de que dependem, e isso já se faz em português com « gostar de » ou « sonhar com ». Aqui há três coisas a arrumar. A primeira é a contração: o francês contrai *apenas* à e de com le e les, enquanto o português contrai quase tudo — do, no, pelo, num. A segunda é que com os países manda o género, e não a preposição: en France mas au Portugal. E a terceira é um sinal enganador: o francês tem um à com acento grave que não é crase nenhuma.
Pronúncia, escrita e estilo
Escrita e som
4 temasNisto o português é a língua que menos se espanta. Quem fala português europeu já vive com a ideia de que a escrita diz mais do que a boca: as vogais átonas fecham-se e desaparecem, « telefone » sai com duas vogais em vez de quatro, e ninguém acha que isso seja um erro. A diferença é que a redução portuguesa é fonética e regular, ao passo que o silêncio francês é total e carrega a gramática: il parle e ils parlent soam iguais, ami e amis soam iguais, e o plural quase só se ouve no artigo e na ligação. E há um sítio em que as duas línguas fazem o mesmo gesto: o -s final que se liga à vogal seguinte e passa a soar como z.
Estilo e escrita
8 temasNada do que está aqui decide uma frase, e tudo decide a impressão. Muito já te é familiar: a profissão sem artigo, « todo » que concorda, os meses em minúscula, a vírgula decimal, as aspas angulares. O que muda é mais miúdo. A pergunta que se faz neste lugar deixa de ser « ser ou estar » e passa a ser c'est ou il est. O « mesmo » português faz aqui os três trabalhos de même, o que é raro e vale a pena saber. O « a gente » que usas para dizer « nós » tem aqui um gémeo exato, on. E os diminutivos com que atenuas uma crítica não existem: é preciso uma palavra inteira.
Construção da frase
Perguntas e negação
5 temasO português nega com uma palavra à frente do verbo e pergunta pela entoação. O francês parte as duas coisas de outra maneira. A negação tem duas peças a abraçar o verbo — ne … pas — e nenhuma das duas é « não »: non existe, mas só serve para responder, nunca para negar uma frase. E para perguntar há três caminhos, um dos quais te vai parecer familiar de imediato: est-ce que é, peça por peça, o « é que » de « onde é que moras? ». De todas as línguas de partida, o português é a única que já traz essa construção pronta.
Ligar duas frases
5 temasO « que » português faz sozinho o trabalho que o francês reparte por qui e que, e o que decide não é o sentido mas o papel da palavra dentro da subordinada: sujeito ou complemento. Em compensação, o essencial já vem de casa: o relativo não se pode omitir e a preposição vai à frente, nunca no fim. O que é preciso desmontar é o hábito da contração. O português junta a preposição ao artigo em quase tudo — « do qual », « ao qual », « no qual », « pelo qual » — e o francês só o faz com à e com de; e dont não contrai com nada, porque já é a preposição inteira.
O discurso indireto
5 temasO mecanismo é o teu e o recuo dos tempos também: verbo introdutor no presente, nada se mexe; no passado, tudo recua um passo — presente para imparfait, pretérito perfeito para plus-que-parfait, futuro para conditionnel. O que muda é outra coisa. O pronome: o português prende-o ao verbo — « disse-me », « pediu-nos » — e desloca-o para diante assim que aparece um « que »; o francês põe-o sempre antes do verbo e nunca o prende. O mais-que-perfeito simples — « pagara », « dissera » — não tem forma correspondente e desdobra-se em duas palavras. E espérer que, ao contrário de « espero que », vai com o indicativo.