Pronúncia do francês: 36 pares mínimos para ouvir
Um par mínimo são duas palavras que diferem num único som. Quem as distingue tem o som. Quem não, diz durante anos a mesma palavra e estranha que lhe perguntem o que queria dizer.
Esta lista é mais curta do que as habituais porque segue uma única regra: só contém as distinções que não existem em português. Uma diferença que a própria língua já faz não custa esforço; as que não faz são as que vale a pena praticar.
Por isso cada um dos 5 grupos diz primeiro o que faz em vez disso quem fala português. É essa a verdadeira informação; as palavras abaixo são as provas. Aqui não há transcrição fonética: quem conhece os símbolos não precisa desta página, e a quem não os conhece não dizem nada.
As quatro vogais nasais
Sons parecidos com os portugueses, mas não iguais — e escritos com letras que o português lê de outra maneira.
O que acontece: Aqui o português parte com vantagem: tem vogais nasais e sabe que o n de an, on, in e un não se pronuncia, só dá cor à vogal. O problema está na qualidade das vogais e na ortografia. in e ain não soam como o «im» de «fim», com i, mas como um e aberto nasal; un não tem nada do «um» português; e an é mais aberto e mais recuado do que o «an» de «canto». Há ainda um hábito a largar: em português uma nasal no fim da palavra transforma-se muitas vezes num ditongo, como em «bem» ou «pão». A nasal francesa é uma vogal só, firme do princípio ao fim. Quando depois do n vem uma vogal ou um segundo n, a nasal desaparece e o n ouve-se: bon, mas bonne.
| Uma | significa | A outra | significa |
|---|---|---|---|
| banc | o banco (assento) | bon | bom |
Le banc est mouillé.O banco está molhado. Ambas acabam numa consoante muda: só a vogal nasal as distingue. bon soa quase como «bom». | |||
| brun | castanho | bain | o banho |
Le bain est trop chaud.O banho está demasiado quente. A quarta nasal, un, tende hoje a confundir-se com in, e quem as diz iguais está em boa companhia. O que não pode é soar como o «um» português: não tem nada de u. | |||
| pain | o pão | pan | a aba, o pano (de muro) |
Je prends du pain frais.Levo pão fresco. pain não se lê como o «im» português: é um e aberto nasal, sem ditongo e sem n no fim. | |||
| temps | o tempo (que passa e que faz) | thon | o atum |
Je n’ai pas le temps.Não tenho tempo. thon soa quase como o português «tom»: o th é um t simples. Em temps nem o p nem o s se pronunciam. | |||
| sans | sem | son | o som; seu, sua |
Il est parti sans manteau.Foi-se embora sem casaco. son soa quase como «som», e também quer dizer isso. A vogal de sans é mais aberta do que a de «sem» — e sem ditongo no fim. | |||
| vent | o vento | vin | o vinho |
Le vent souffle fort.O vento sopra com força. Quem lê vin à portuguesa diz «vim», com i, e não diz nenhuma das duas palavras. Numa esplanada fazem falta ambas, e o empregado ouve a diferença. | |||
| lent | lento | lin | o linho |
Le train est lent aujourd’hui.Hoje o comboio vai devagar. | |||
| plein | cheio | pleine | cheia |
La salle est pleine.A sala está cheia. Aqui a nasal acaba: antes do e o n pronuncia-se, e a vogal fica oral — sem a fechar nem a nasalar por causa do n. | |||
| an | o ano | année | o ano (no seu decurso) |
L’année a été longue.Foi um ano longo. A mesma palavra em duas formas, e a segunda já não é nasal: em année ouve-se o n, como em «ano». | |||
u contra ou
O par de sons em que se reconhece logo um falante de português.
O que acontece: O português não tem o som do u francês: é um i dito com os lábios arredondados como para um u. Quem não o tem lê a letra u como em português, ou seja, como o ou francês, e as duas palavras de cada par passam a ser uma só: o «tu» português, dito em francês, é tout. A ortografia engana duas vezes, porque em quase todo o país o «ou» português se lê o, como em «vou» ou «pouco», e o ou francês é sempre u. Para encontrar o som novo: dizer um i comprido e, sem mexer a língua, empurrar os lábios para a frente e arredondá-los.
| Uma | significa | A outra | significa |
|---|---|---|---|
| tu | tu | tout | tudo |
Tout est prêt.Está tudo pronto. As duas palavras mais frequentes da língua, e só esta vogal as separa. O «tu» português é o tout francês. | |||
| rue | a rua | roue | a roda |
La rue est calme le matin.De manhã, a rua está calma. roue não se lê com o, como o «ou» de «roupa»: o ou francês é sempre u. | |||
| dessus | por cima | dessous | por baixo |
Le livre est dessous.O livro está por baixo. Aqui uma frase pode dizer o contrário do que se queria — e ninguém dá por isso até alguma coisa não aparecer. | |||
| pu | podido | pour | para, por |
C’est pour toi.É para ti. pour tem o u de «uva», não o o de «pouco». | |||
| su | sabido | sous | debaixo de, sob |
Le chat dort sous la table.O gato dorme debaixo da mesa. | |||
| vu | visto | vous | vocês; o senhor, a senhora |
Vous êtes en avance.Chegaram cedo. vous não soa como o português «vou»: o s final é mudo e o ou é u. | |||
| lu | lido | loup | o lobo |
J’ai lu le livre.Li o livro. | |||
é, è e o e mudo
Três sinais, três sons — e os acentos dizem o contrário do que dizem em português.
O que acontece: Os dois sons são conhecidos, os acentos é que enganam. Em português o acento agudo marca a vogal aberta, como em «café», e o circunflexo a fechada, como em «você». Em francês é ao contrário: é é fechado, como o «ê» português, e è é aberto, como o «é». E a diferença separa tempos verbais: j’ai chanté contra je chantais. O e sem acento é o mais fácil para quem fala português de Portugal, porque também o deixa cair: je ne sais pas fica quase uma palavra só. O perigo está no resto: o português reduz as vogais átonas, e o francês não reduz nenhuma. Em été as duas sílabas têm o mesmo e fechado, e nenhuma se apaga.
| Uma | significa | A outra | significa |
|---|---|---|---|
| chanté | cantado | chantais | cantava |
J’ai chanté toute la soirée.Passei a noite toda a cantar. A única diferença que se ouve entre dois tempos é o e: fechado como em «você», aberto como em «café». No norte de França muitos já não a fazem. | |||
| été | sido; o verão | était | era, estava |
Il était en retard.Estava atrasado. Em été as duas vogais são iguais e cheias: a primeira não se reduz, como aconteceria numa sílaba átona portuguesa. | |||
| des | uns, umas | dès | desde, a partir de |
Dès demain, tout change.A partir de amanhã, muda tudo. O s final não se ouve em nenhuma das duas — nem mesmo com o som chiado do s final português. | |||
| ces | estes, estas | sais | sei, sabes |
Je ne sais pas encore.Ainda não sei. Pronunciam-se da mesma maneira e escrevem-se de maneira diferente: quem decide é a frase. | |||
| le | o | les | os, as |
Les enfants dorment.As crianças estão a dormir. O s do nome não se ouve, por isso singular e plural só se distinguem aqui: le com uma vogal breve e arredondada, les com um e fechado e sem s. | |||
| ce | este, esse | ses | os seus, as suas |
Il a oublié ses clés.Esqueceu-se das chaves. ce está perto do «se» português dito depressa, mas com os lábios arredondados. | |||
| mère | a mãe | mer | o mar |
La mer est calme ce matin.Esta manhã o mar está calmo. Pronunciam-se da mesma maneira, e uma terceira palavra soa igual: le maire, o presidente da câmara. | |||
O que cai no fim da palavra
E o que não cai — é disso que depende o género.
O que acontece: No fim de uma palavra francesa quase nenhuma consoante se ouve: petit, grand, tard, temps, vous. As exceções habituais são c, r, f e l — as consoantes da palavra inglesa careful. Quem fala português tende a ler as letras finais, e sobretudo a dar ao s final o som chiado de «mais» ou «pés»: em francês esse s ou não se ouve, ou soa s ou z, nunca como x. E não é pormenor: um adjetivo fica feminino juntando um e, e esse e faz ouvir a consoante anterior. petit dito com t já é a forma feminina. O e final, esse, não se pronuncia — e aí o hábito português de o deixar cair ajuda.
| Uma | significa | A outra | significa |
|---|---|---|---|
| petit | pequeno | petite | pequena |
C’est une petite ville.É uma cidade pequena. É o e que faz ouvir o t. Quem diz as duas formas da mesma maneira diz sempre o feminino. | |||
| grand | grande (masculino) | grande | grande (feminino) |
C’est une grande maison.É uma casa grande. Em português é uma palavra só, em francês são duas: no masculino o d não se ouve, no feminino ouve-se. | |||
| français | francês | française | francesa |
C’est une chanson française.É uma canção francesa. No feminino o s ouve-se, sonoro como em «casa». No masculino não se ouve nada. | |||
| vert | verde (masculino) | verte | verde (feminino) |
La porte est verte.A porta é verde. | |||
| assis | sentado | assise | sentada |
Elle est assise au fond.Está sentada ao fundo. A regra é a do português: um s simples entre vogais soa z, como em «casa»; ss soa s, como em «passo». | |||
| plus | mais | plu | chovido; agradado |
Il a plu toute la nuit.Choveu a noite toda. Em ne … plus («já não») o s nunca se pronuncia; quando plus quer dizer «mais», no fim da frase, muitas vezes sim. Na fala, j’en veux plus muda de sentido conforme o s. | |||
| six | seis | si | se; tão |
Si tu veux, on part maintenant.Se quiseres, partimos já. Antes de consoante, six soa exatamente como si: six personnes. | |||
| neuf | novo | neuve | nova |
La voiture est neuve.O carro é novo. O f é uma das consoantes finais que se ouvem, e no feminino passa a v. neuf também quer dizer «nove». | |||
O r e o h mudo
Um som que já se conhece, noutro lugar da palavra, e um que não se faz de todo.
O que acontece: O r francês faz-se no fundo da boca, com o dorso da língua junto à úvula — é o r de «rato» ou de «carro» na pronúncia de Lisboa. A dificuldade não é o som, é o lugar: o português usa esse r só no início da palavra e no rr, e entre vogais ou antes de consoante bate a ponta da língua, como em «caro» ou «parte». O francês usa o mesmo r em todo o lado, e um r batido é a marca mais clara do sotaque. O h é mudo, como em «hora», e não traz problemas de pronúncia. O que é preciso aprender é que há dois tipos de h. Antes do h mudo o artigo junta-se à palavra com apóstrofo, coisa que o português não faz: l’heure, l’homme. Antes do h chamado aspirado não: le héros, la haine, embora também não se pronuncie. Que h tem cada palavra diz o dicionário, não uma regra.
| Uma | significa | A outra | significa |
|---|---|---|---|
| heure | a hora | œuvre | a obra |
Il est arrivé à l’heure.Chegou a horas. O h é mudo, como em «hora», e por isso l’heure. O som eu não existe em português: é um e dito com os lábios arredondados. | |||
| héros | o herói | zéro | o zero |
Le héros du livre est un enfant.O herói do livro é uma criança. Este h é aspirado: le héros, nunca l’héros, mesmo sem se ouvir. E o o final de zéro é mesmo um o, não o u do fim de «zero». | |||
| rond | redondo | long | comprido, longo |
Le trajet est long.O trajeto é longo. O r de rond é o de «rato» na pronúncia de Lisboa. Depois, nas duas palavras, a mesma nasal, sem n nem g no fim. | |||
| rire | rir | lire | ler |
J’aime lire le soir.Gosto de ler à noite. O português «rir» tem dois r diferentes; rire tem dois iguais, ambos na garganta. O e final não se pronuncia. | |||
| pardon | desculpe, perdão | parton | partimos (forma dialetal) |
Pardon, je ne vous ai pas vu.Desculpe, não o tinha visto. O d e o t distinguem-se como em português. O r antes da consoante é o que um português bate com a ponta da língua, como em «parto»; em francês é o mesmo r do início de rire. | |||
Ouvir e distinguir
Diz-se uma das duas palavras e indica qual. Duas hipóteses significam que ao acaso se acerta metade. Por isso cada par sai duas vezes — uma por palavra. Quem não tem o som fica nos cinquenta por cento entre as duas, e isso vê-se; um acerto isolado não se veria.