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Aprender francês: perguntas frequentes

33 perguntas que se fazem mesmo ao aprender francês, com respostas que se aguentam sozinhas. Onde há mais a dizer, a ligação vem por baixo — não em vez da resposta.

Começar

Por onde começar, quanto tempo leva, o que significam os níveis.

Como começar a aprender francês?

Com quatro coisas ao mesmo tempo, não uma depois da outra: os dois auxiliares être e avoir, as terminações do presente, as primeiras palavras do dia a dia e o hábito de repetir frases inteiras em voz alta. Este último ponto conta mais do que parece. Um português percebe depressa o francês escrito, porque muitas palavras se reconhecem à primeira vista, e por isso mesmo corre o risco de o ler letra a letra. Quem aprende só a ler constrói uma pronúncia que depois terá de desfazer.

A gramática, nível a nível

O francês é difícil para um português?

Em parte menos do que se pensa, em parte mais. Ajuda muito: a mesma origem latina, os mesmos géneros na maior parte das palavras, os mesmos tempos, um conjuntivo, e na pronúncia as vogais nasais e a ligação entre palavras, que o português europeu também conhece. Custa mais: as letras que não se pronunciam, as vogais que o português não tem, o sujeito obrigatório, o auxiliar être e dois pronomes, y e en, sem equivalente direto. E custa a própria semelhança, que leva a pôr uma regra portuguesa onde o francês tem outra.

O que se consegue fazer em cada nível

O que significam A1, A2, B1, B2, C1 e C2?

São os seis níveis de uma escala europeia, das primeiras frases (A1) ao domínio sem esforço (C2). As siglas são de uso livre; as descrições oficiais de cada nível estão protegidas por direitos de autor, e este site, de propósito, não as reproduz. O que aqui se encontra é uma divisão própria da matéria, com um critério declarado: a pergunta não é se uma palavra é difícil, mas a partir de quando já não se avança sem ela.

Os níveis um a um

Quanto tempo leva a aprender francês?

Não há um número honesto de horas, e quem o apresenta como facto inventou-o: depende do que já se sabe, da frequência com que se pratica e do que se quer fazer com a língua. Duas coisas podem dizer-se. Um português parte com vantagem na leitura, porque grande parte do vocabulário tem a mesma origem latina. E a compreensão oral fica muito tempo atrás da leitura: é normal, não é sinal de que algo corre mal, e recupera-se a ouvir, não a ler mais.

Com que praticar

Gramática

Os pontos em que o francês se parece com o português e depois faz de outra maneira.

J’ai mangé quer dizer «comi» ou «tenho comido»?

Quer dizer «comi». O passé composé forma-se como o nosso perfeito composto — auxiliar mais particípio —, mas usa-se como o perfeito simples: hier, j’ai mangé au restaurant é «ontem comi no restaurante». O «tenho comido» português, que fala de algo repetido até agora, não tem uma forma própria em francês; diz-se normalmente com o presente e uma indicação de tempo, como em ces derniers temps, je mange peu, «ultimamente tenho comido pouco».

O passé composé com avoir

Quando se usa être e quando avoir no passé composé?

Em português os tempos compostos usam só «ter»; em francês há dois auxiliares. Être vai com um grupo fechado de verbos de movimento e de mudança de estado — je suis allé, elle est venue, il est né — e com todos os verbos pronominais: je me suis levé. Tudo o resto leva avoir. Com être o particípio concorda com o sujeito, como um adjetivo: elle est partie, nous sommes arrivés. Esta lista aprende-se de cor, porque o português não dá nenhuma pista.

Que verbos levam être

Passé composé ou imparfait: como escolho?

Aqui o português ajuda de verdade: a divisão corresponde quase por completo à que existe entre o perfeito e o imperfeito. O imparfait descreve o cenário, o hábito, o que estava a acontecer; o passé composé conta os acontecimentos. Il pleuvait et je suis sorti é «chovia e saí», tempo por tempo. Basta perguntar o que se diria em português: «saí» pede passé composé, «chovia» pede imparfait.

Os dois passados lado a lado

Depois de «espero que» vem o conjuntivo também em francês?

Não, e é um erro típico de quem fala português. J’espère que pede o indicativo: j’espère qu’il viendra para «espero que venha». Com je pense que e je crois que as duas línguas coincidem — «acho que ele vem», je pense qu’il vient —, e coincidem também na negação: je ne pense pas qu’il vienne. Depois de expressões de vontade, receio e necessidade, o subjonctif é obrigatório como o conjuntivo: je veux que tu viennes, il faut que je parte, bien qu’il soit tard.

O que obriga ao subjonctif

Como se diz «quando chegares» e «se vieres» em francês?

Sem conjuntivo, porque o francês não tem futuro do conjuntivo. Depois de quand, quando se fala do futuro, usa-se o futuro simples: quand tu arriveras, appelle-moi, «quando chegares, liga-me». Depois de si, usa-se o presente: si tu viens, je serai content, «se vieres, fico contente». São dois dos erros mais persistentes de quem fala português, porque a frase portuguesa parece pedir outra coisa.

Depois de quand vem o futuro

Como se diz «se eu tivesse tempo» em francês?

Si j’avais le temps: depois do si hipotético, o francês usa o imperfeito do indicativo, não o conjuntivo. A oração principal vai para o condicional, como em português: si j’avais le temps, je viendrais, «se tivesse tempo, vinha» ou «viria». Uma regra sem exceções ajuda: depois de si nunca vem o condicional.

As frases com si

Porque é que em francês tenho de dizer sempre je, tu, il?

Porque as terminações, em grande parte, não se ouvem. Parle, parles e parlent pronunciam-se da mesma maneira, e sem o pronome não se saberia quem fala. O português pode dizer «falo» porque a terminação indica a pessoa; em francês quem a indica é o pronome, que por isso não se omite. Vale também onde o português não tem sujeito nenhum: «chove» é il pleut, «é preciso» é il faut, «há» é il y a.

O presente dos verbos em -er

Ser ou estar: como se distingue em francês?

Não se distingue: o francês só tem être. «Sou alto» e «estou cansado» dizem-se com o mesmo verbo — je suis grand, je suis fatigué —, e a diferença que o português marca no verbo fica no contexto. O que não se diz com être é a idade e algumas sensações, que levam avoir, como em português levam «ter»: j’ai vingt ans, j’ai faim.

être — ser e estar

Quando se usa du, de la e des?

Sempre que se fala de uma quantidade indeterminada, e é isso que o português não tem. Onde dizemos «como pão» ou «bebo água», sem artigo, o francês exige um: je mange du pain, je bois de l’eau, il y a des problèmes. Esquecê-lo é o erro mais frequente de quem fala português. Depois de uma negação, o artigo reduz-se a de: je ne mange pas de pain.

O artigo partitivo

Para que servem y e en?

Retomam algo que já foi dito, e o português deixa-o simplesmente cair. Y substitui um lugar ou à mais uma coisa: Tu vas à Paris ? — Oui, j’y vais. Em português bastava «vou». En substitui de mais uma coisa, ou uma quantidade dela: Tu veux du pain ? — Oui, j’en veux. Em português, «quero». Com números é igual: j’en ai trois, «tenho três». Uma frase francesa sem eles não soa errada, soa incompleta.

y e en em pormenor

Como funciona a negação ne … pas?

O francês nega com duas peças à volta do verbo: je ne sais pas, onde o português diz só «não sei». A segunda peça muda com o sentido, e aqui o português ajuda, porque também conhece a dupla negação: je ne mange jamais como «não como nunca», je ne vois rien como «não vejo nada», je ne connais personne como «não conheço ninguém». Nestes casos não há pas. Na fala, o ne cai muitas vezes — je sais pas —, mas na escrita fica.

A negação

Como sei se um nome francês é masculino ou feminino?

Na maioria dos casos o género é o mesmo da palavra portuguesa correspondente, e essa é a maior ajuda. As armadilhas são poucas mas muito frequentes. As palavras em -age são masculinas, enquanto as nossas em «-agem» são femininas: le voyage, le message, le garage, le paysage — com exceções como la page, l’image e la plage. E algumas palavras do dia a dia mudam de género: la mer, la dent, la valeur, mas l’arbre e le pont são masculinos. Um nome aprende-se com o artigo, nunca sem ele.

As terminações que denunciam o género

O adjetivo vem antes ou depois do nome?

Em regra depois, como em português: une voiture rouge, un livre intéressant. Antes vem um pequeno grupo de adjetivos curtos e muito frequentes — grand, petit, bon, mauvais, jeune, vieux, beau, nouveau. E a mudança de sentido conforme a posição funciona como em português: un grand homme é «um grande homem», un homme grand «um homem alto»; un pauvre homme é «um pobre homem», un homme pauvre «um homem pobre».

Onde fica o adjetivo

O que é o pronome on?

Um sujeito indefinido com o verbo na terceira pessoa do singular, muito próximo do «se» impessoal: ici, on mange bien é «aqui come-se bem». Na fala faz ainda outro trabalho, e fá-lo constantemente: substitui nous, um pouco como «a gente» na linguagem coloquial. On y va ? quer dizer «vamos?», e nous, on part demain «nós partimos amanhã». Quem diz sempre nous não erra, mas soa a texto escrito.

on em vez da passiva

Tu ou vous? Como se trata alguém com cortesia em francês?

Com vous e o verbo na segunda pessoa do plural: vous êtes, vous avez. O português leva por outro caminho, porque «você», «o senhor» e «a senhora» usam a terceira pessoa do singular; em francês, dirigir-se a alguém com il ou elle não é cortesia, é falar de outra pessoa. Tu usa-se, como em Portugal, com a família, os amigos e as crianças. E vous serve também de plural normal, para várias pessoas que se tratam por tu.

Como se diz «estou a comer» em francês?

Existe je suis en train de manger, mas usa-se menos do que «estou a comer»: serve para sublinhar que se está a meio de alguma coisa. Na maior parte dos casos o francês usa o presente simples. À pergunta qu’est-ce que tu fais ? responde-se normalmente je lis ou je travaille.

être en train de

Pronúncia

Porque se escreve o que não se diz, e os sons que parecem iguais e não são.

Porque é que o francês não se lê como se escreve?

Porque a ortografia parou há séculos e a pronúncia continuou. O português europeu também não pronuncia tudo o que escreve — as vogais átonas quase desaparecem —, mas o francês vai mais longe: no fim da palavra, a maior parte das consoantes cala-se — petit, grand, temps, vous —, e as exceções frequentes são c, r, f e l. Não é um pormenor: o feminino forma-se com um e que não se ouve, mas que faz ouvir a consoante anterior. Em petit o t cala-se, em petite ouve-se.

As terminações mudas

O que é a liaison?

O reaparecimento de uma consoante final muda quando a palavra seguinte começa por vogal. O português europeu faz algo parecido: em «os amigos» o s soa como um z e liga-se à palavra seguinte. Em les enfants acontece exatamente o mesmo. A diferença é que em francês a ligação apanha também outras consoantes — o t de petit ami, o n de un ami — e às vezes distingue palavras: ils ont («têm», com som de z) e ils sont («são», com som de s). Depois de um artigo ou de um pronome é obrigatória; noutros sítios é proibida, por exemplo depois de et.

Quando se liga e quando não

Para que servem os acentos franceses?

Não para marcar a sílaba tónica, como em português: em francês o acento cai sempre na última sílaba pronunciada da palavra ou do grupo. Os acentos gráficos indicam outra coisa, e um deles engana: é francês é fechado, ao contrário do «é» português, que é aberto. Café termina num e fechado, próximo do de «você». O è é que é aberto. O acento circunflexo lembra muitas vezes um s desaparecido, e o português ajuda a reconhecê-lo: fête é «festa», forêt «floresta», hôpital «hospital».

Os acentos

Como se pronunciam u e ou?

Ou é o u português: tout, vous, rouge. O u escrito sozinho é um som que o português não tem: diz-se um i com os lábios arredondados como para um u. A diferença distingue palavras: tu e tout, rue e roue, dessus e dessous.

Como se pronuncia o r francês?

Lá atrás, perto da garganta, e não com a ponta da língua. Aqui o português de Lisboa tem uma vantagem: o r de «rato» e de «carro», tal como aí se pronuncia, fica muito perto do r francês. A diferença é que o francês usa esse r em todas as posições, também entre vogais e depois de consoante, onde o português tem um r leve com a ponta da língua: em Paris e em très o r é o de «carro», não o de «caro».

As vogais nasais francesas são como as portuguesas?

Parecidas, não iguais — e essa é uma vantagem que quase nenhum outro aprendente tem. O mecanismo é o mesmo, e bon está perto de «bom». Mas o timbre muda: vin não tem o i de «vim», é uma vogal mais aberta, e an é mais aberto e mais recuado do que o «ã». E a nasal francesa é pura, sem o ditongo que o português ouve em «mão», «bem» ou «põe». Quando depois vem uma vogal ou um segundo n, a nasal desaparece: bon contra bonne, fin contra fine.

Vocabulário

Que palavras primeiro, e que semelhanças enganam.

De quantas palavras francesas preciso?

Não há um número exato, e a ordem conta mais do que a quantidade: as palavras mais frequentes cobrem a maior parte de qualquer texto comum, as raras quase nada. Para um português há uma vantagem extra: muitas palavras reconhecem-se sem terem sido estudadas. Por isso mesmo, vale a pena dedicar o tempo às palavras do dia a dia que não se parecem com o português, como vite, déjà, aujourd’hui ou chercher.

As palavras de base

Que palavras francesas parecem portuguesas e querem dizer outra coisa?

Pousser quer dizer empurrar, não puxar — numa porta, poussez é o contrário do que parece. Attendre é esperar, não atender. Exquis quer dizer requintado ou delicioso, não esquisito. Ranger é arrumar. Le costume é o fato, não o costume. Mes parents são normalmente os meus pais, não os meus parentes. E la dépense é a despesa, não a despensa. Estas palavras são mais perigosas do que as desconhecidas, porque não ocorre a ninguém ir verificá-las.

O vocabulário

O português ajuda ou confunde?

As duas coisas. Ajuda muito na leitura e em muitas expressões que se constroem da mesma maneira: avoir faim, avoir raison, avoir froid, avoir vingt ans. Confunde onde a construção muda sem aviso: «fazer uma pergunta» é poser une question, «tirar uma fotografia» é prendre une photo, «tomar o pequeno-almoço» é prendre le petit-déjeuner. Uma frase francesa que soa perfeitamente portuguesa merece um segundo olhar.

Expressões francesas

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O que se consegue fazer em cada nível