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Para ler se quiseres — não é matéria para aprender

O inglês: um pequeno retrato

De onde vem o inglês, como chegou a ser falado em todo o mundo, porque se escreve como se escreve e o que surpreende quem fala português.

Família
Indo-europeia, ramo germânico ocidental
Escrita
Alfabeto latino, 26 letras, sem acentos
Primeira língua em
Reino Unido, Irlanda, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e outros
Língua oficial em
Mais de cinquenta países
Parentes próximos
Frísio, neerlandês, alemão
Vocabulário
Base germânica, com muitíssimas palavras de origem francesa e latina
Variedades principais
Britânica, americana, australiana, entre outras

De onde vem

O inglês é uma língua germânica, da mesma família do alemão, do neerlandês e das línguas escandinavas. O seu parente mais próximo é o frísio, falado hoje sobretudo na província da Frísia, nos Países Baixos, e em pequenas zonas do norte da Alemanha.

Chegou à Grã-Bretanha no século V, com povos vindos do que é hoje o norte da Alemanha e a Dinamarca — anglos, saxões e jutos. Dos anglos ficou o nome: English, a língua dos anglos, e England, a terra dos anglos. As palavras mais básicas do inglês continuam a ser germânicas: father, water, house, drink.

A história em poucas etapas

O inglês antigo, até por volta de 1100, era uma língua com casos e terminações, mais parecida com o alemão do que com o inglês de hoje; quem o vê escrito não o reconhece. Os vikings, que se instalaram em grande parte da ilha, deixaram palavras tão comuns como sky, egg e até they.

Em 1066, os normandos conquistaram a Inglaterra, e durante cerca de três séculos a corte, a justiça e a nobreza falaram francês. Daí vem um dos traços mais curiosos do inglês: o animal tem nome germânico, pig, cow, sheep, e a carne que chegava à mesa dos senhores tem nome francês, pork, beef, mutton.

O inglês médio, a língua de Chaucer no fim do século XIV, já se parece bastante com o atual. Com a imprensa, que chegou a Inglaterra em 1476, com Shakespeare e com a Bíblia do rei Jaime, de 1611, nasce o inglês moderno. O império britânico e, mais tarde, o peso económico e cultural dos Estados Unidos levaram-no a todos os continentes.

Onde se fala hoje

É a primeira língua da maioria da população no Reino Unido, na Irlanda, nos Estados Unidos, no Canadá (ao lado do francês), na Austrália e na Nova Zelândia. Em muitos outros países — a Índia, a Nigéria, as Filipinas, a África do Sul — é língua oficial ou de uso corrente na administração, no ensino e nos negócios.

Uma particularidade: hoje há mais gente a falar inglês como segunda língua ou língua estrangeira do que como língua materna. É a língua comum da aviação, da ciência e de boa parte da internet.

As duas grandes normas são a britânica e a americana. Mudam algumas grafias, colour e color, centre e center, muitas das quais o americano Noah Webster simplificou no seu dicionário de 1828. Mudam palavras, flat e apartment, lift e elevator. E muda a pronúncia: nos Estados Unidos o r depois de vogal ouve-se, em grande parte de Inglaterra não.

Como se escreve

O alfabeto latino chegou com os missionários cristãos, a partir do século VII. O inglês antigo usava ainda letras que desapareceram, como o þ (chamado thorn) para o som de th. Quando as primeiras tipografias não o tinham, imprimiam um y no seu lugar — é por isso que ainda se vê Ye Olde Shop em letreiros antiquados, que se lê como the.

A ortografia fixou-se em boa parte com a imprensa, precisamente quando a pronúncia das vogais estava a mudar muito. A escrita ficou parada e a fala continuou: em knight, o k e o gh já se pronunciaram. Por isso as mesmas letras soam de maneiras diferentes em though, through e tough.

Não há nenhuma academia que regule o inglês. As normas vêm dos dicionários, a começar pelo de Samuel Johnson, de 1755, e do uso dos editores e das escolas.

Palavras que viajaram

O português foi buscar ao inglês sobretudo palavras do desporto, da comida e da técnica: «futebol», «golo», «bife» (de beef), «sanduíche», e hoje, sem adaptação nenhuma, «email», «software» ou «stress».

O caminho inverso também existe. O inglês recebeu do português marmalade (de «marmelada»), molasses (de «melaço»), cobra e albino — lembranças do comércio e das viagens portuguesas.

Mas a grande fonte do inglês é o francês e, através dele e da escola, o latim. Muitas palavras inglesas «difíceis» são, para quem fala português, as mais fáceis: liberty, information, necessary, important.

O que surpreende quem fala português

Primeiro, a distância entre o que se escreve e o que se diz: nunca se pode ter a certeza de como se pronuncia uma palavra nova só por a ler. Depois, os sons que o português não tem, como os dois th de think e this, e as vogais longas e breves que distinguem ship de sheep.

A gramática, em compensação, é leve: os substantivos não têm género, the serve para tudo, os adjetivos não mudam e os verbos quase não se conjugam. Um só you cobre «tu», «você» e «vós». O que exige mais atenção são os tempos contínuos (I am reading) e os phrasal verbs, como give up, cujo sentido não se adivinha pelas partes.

E há os falsos amigos: actually quer dizer «na verdade», não «atualmente»; pretend é «fingir»; e numa porta, push significa «empurrar» — puxar é pull.