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Pronúncia do italiano: 37 pares mínimos para ouvir

Um par mínimo são duas palavras que diferem num único som. Quem as distingue tem o som. Quem não, diz durante anos a mesma palavra e estranha que lhe perguntem o que queria dizer.

Esta lista é mais curta do que as habituais porque segue uma única regra: só contém as distinções que não existem em português. Uma diferença que a própria língua já faz não custa esforço; as que não faz são as que vale a pena praticar.

Por isso cada um dos 5 grupos diz primeiro o que faz em vez disso quem fala português. É essa a verdadeira informação; as palavras abaixo são as provas. Aqui não há transcrição fonética: quem conhece os símbolos não precisa desta página, e a quem não os conhece não dizem nada.

Consoante simples ou consoante dupla

A consoante dura mesmo mais tempo, e é isso que decide a palavra.

O que acontece: Em italiano, uma consoante escrita dupla pronuncia-se dupla: dura mais ou menos o dobro de uma simples. Com p, t e k, ouve-se como uma pequena pausa antes de o som sair: em nonno a voz detém-se um instante, em nono não. O português não distingue palavras desta maneira, e quem o fala tende a ler todas as duplas como simples. As duas únicas que o português escreve enganam de outra forma, porque nelas a letra dupla não é um som mais longo, mas um som diferente. Em «carro», o rr de Lisboa é um r da garganta; o rr italiano é uma vibração múltipla da ponta da língua, e o r simples, um toque rápido como o de «caro». Com o s, pelo contrário, a regra portuguesa acerta: no norte de Itália, s entre vogais soa como z, tal como em «casa», e ss é sempre surdo, como em «passo». Para encontrar o som longo, ajuda partir de uma pausa: dizer not-te como se fossem duas palavras e ir aproximando as duas metades até a consoante ficar apenas segura. Convém ainda olhar para as vogais. Antes de n ou m, a vogal italiana não se fecha nem se nasaliza: anno tem o a aberto de «pá», não o de «ano». E a vogal tónica é breve antes de uma dupla e alonga-se antes de uma simples, de modo que o o de nono se estica. O erro inverso também existe: quem dobra tudo por precaução diz anno quando queria dizer ano, e em italiano essa troca é embaraçosa.

UmasignificaA outrasignifica
nonononononnoo avô

Abita al nono piano.Mora no nono andar.

nono é o mesmo «nono» do português; é o avô que leva o n duplo.
carocaro, queridocarroa carroça, o carro de bois

Questo albergo è troppo caro.Este hotel é demasiado caro.

O par existe em português, mas o rr italiano faz-se com a ponta da língua, nunca com a garganta. E o «carro» de passeio diz-se macchina.
penaa pena (castigo), o esforçopennaa caneta; a pena (de ave)

Vale la pena provare.Vale a pena tentar.

A «pena» portuguesa cobre as duas palavras. O italiano separa-as: pena é o castigo e o esforço, penna a pena da ave e a caneta.
anoo ânusannoo ano

L’anno prossimo cambio lavoro.No próximo ano mudo de emprego.

A armadilha é total: escrito como em português, ano é o ânus. O ano leva n duplo, e o a é aberto, não o de «ano».
sonosou; sãosonnoo sono

Ho sonno, vado a letto.Tenho sono, vou para a cama.

Outra troca perigosa: o «sono» português é sonno, e sono é «sou» ou «são». ho sonno constrói-se como «tenho sono».
casaa casacassaa caixa (de uma loja)

Si paga alla cassa.Paga-se na caixa.

No norte de Itália, o s de casa soa como o de «casa»; no centro e no sul é surdo. O de cassa é surdo em toda a parte.
notaa notanottea noite

Ha piovuto tutta la notte.Choveu a noite toda.

Par imperfeito: muda também a última vogal. Onde um ct latino deu «it» em português («noite», «leite», «oito»), o italiano tem muitas vezes tt: notte, latte, otto.
fatoo destino, o fadofattoo facto

È un fatto, non un’opinione.É um facto, não uma opinião.

fato não é o fato que se veste: é o mesmo fatum que deu «fado». E fatto é também o particípio «feito».
copiaa cópiacoppiao casal, o par

Sono una coppia da dieci anni.São um casal há dez anos.

setea sedesettesete

Il treno parte alle sette.O comboio parte às sete.

Cuidado: escrito como o «sete» português, sete é a sede. O número leva t duplo.
rosacor-de-rosa; a rosarossavermelha

Ha comprato una macchina rossa.Comprou um carro vermelho.

rosso é vermelho, não roxo, embora as duas palavras venham da mesma família latina.
papao papapappaa papa (de bebé)

Il papa parlò dalla finestra.O papa falou da janela.

O português escreve os dois da mesma maneira; o italiano distingue-os pelo p. E papà, com acento no fim, é o «papá» — três palavras separadas por uma consoante e um acento.
poloo polopolloo frango

Abbiamo mangiato pollo arrosto.Comemos frango assado.

tutao fato de treino, o fato-macacotuttatoda

Ha lavorato tutta la settimana.Trabalhou a semana toda.

ecoo ecoeccoeis, aqui está

Ecco il tuo caffè.Aqui tens o teu café.

O c e o g, duros e brandos

A mesma letra, dois sons, e quem decide é a vogal seguinte.

O que acontece: A regra é parecida com a do português: c e g são duros antes de a, o e u e mudam antes de e e i. O que não coincide é o som em que se transformam. Antes de e e i, o c italiano não é o s de «cedo», mas o «tch» de «tchau»: cena diz-se «tchena». E o g não é o j de «gente», mas um «dj», com o d bem audível à frente: gelo diz-se «djelo». A armadilha mais séria está na ortografia que mantém o som duro. Onde o português escreve «qu» e «gu» («quilo», «guerra»), o italiano escreve ch e gh: chi diz-se «qui» e ghetto, «gueto». Quem lê ch à portuguesa diz «xi», e esse som, em italiano, escreve-se sci. O u italiano, por sua vez, ouve-se sempre: guerra diz-se com o gu de «água», nunca com o de «guerra», e cuore começa como «quota». Um i mudo faz o contrário do h e amacia a letra antes de a, o e u: ciao começa por «tch», como o «tchau» que o português escreve, e o i não se ouve.

UmasignificaA outrasignifica
cenao jantarchienacheia (forma dialetal de piena)

La cena è alle otto.O jantar é às oito.

cena começa por «tch», não pelo s da «cena» portuguesa. A palavra é a mesma que deu «ceia».
chiquemcinos; lá, aí

Chi è alla porta?Quem está à porta?

Ao contrário do que o português faria: chi diz-se «qui», e é ci que se diz «tchi».
geloo gelo, a geadaghettoo gueto

Stanotte c’è stato il gelo.Esta noite geou.

gelo escreve-se como «gelo», mas começa por «dj»; ghetto diz-se «gueto».
caneo cãociaoolá; adeus

Il cane dorme in giardino.O cão dorme no jardim.

O português escreve «tchau», e com razão: o i de ciao não se pronuncia, só está lá para amaciar o c.
giroa volta, o passeioghiroo arganaz

Facciamo un giro in centro.Vamos dar uma volta pelo centro.

giro começa por «dj», não pelo j de «giro»; ghiro começa como «guitarra».
cuoreo coraçãocuocoo cozinheiro

Il cuoco esce dalla cucina.O cozinheiro sai da cozinha.

Antes de u, o c é duro sem ajuda. O u, esse, ouve-se sempre: cuoco tem duas sílabas e começa como «quota».

gli e gn

Dois sons que o português já tem, o nh e o lh, com outra ortografia.

O que acontece: Aqui o falante de português parte com vantagem: os dois sons existem na sua língua, e só a escrita muda. gn é o nh de «banho» — bagno e «banho» são a mesma palavra e soam quase igual —, e gli é o lh de «filho»: figlio e «filho» também. Muitas vezes a correspondência vê-se na própria palavra, porque as duas línguas partiram do mesmo latim: aglio e «alho», sogno e «sonho», moglie e «mulher». O que é preciso vigiar é a leitura. Em «digno», «ignorar» ou «glória», o português pronuncia o g e o n, ou o g e o l, em separado, e quem lê assim segno ou figlio engana-se: em italiano, gn é sempre nh, e gli seguido de vogal é sempre lh, com o i mudo — figlio tem duas sílabas. Só quando falta o i é que gl volta a ser g mais l, como em inglese. E um pormenor de duração: entre vogais, os dois sons italianos são longos, um pouco mais demorados do que o nh e o lh do português.

UmasignificaA outrasignifica
figlioo filhofiloo fio

Suo figlio studia a Bologna.O filho dele estuda em Bolonha.

O gli de figlio é o lh de «filho», e o i não se ouve.
gnocchios nhoquesnocchinós da madeira (palavra rara)

Gli gnocchi si fanno con le patate.Os nhoques fazem-se com batata.

O português escreve «nhoque» tal como se diz: esse nh é o gn italiano.
bagnoa casa de banhobanjoo banjo

Il bagno è in fondo al corridoio.A casa de banho é ao fundo do corredor.

bagno soa como «banho», que é a mesma palavra; em banjo há um n seguido de «dj».
mogliea mulher, a esposamollemole

Sua moglie è medico.A mulher dele é médica.

moglie e «mulher» vêm ambas de mulier, com o mesmo lh; molle é «mole», com um l longo.
sognoo sonhosonosou; são

È stato solo un sogno.Foi só um sonho.

sogno soa como «sonho». E sono não é o «sono» do português: esse é sonno.
aglioo alhoagoa agulha

Metti poco aglio nel sugo.Põe pouco alho no molho.

sc antes de e e de i

Duas letras, um só som: o x de «peixe».

O que acontece: Antes de e e i, sc é um único som, o x de «peixe» ou o ch de «chave»: pesce diz-se «pê-xe», com o e final bem pronunciado. O som não é problema para quem fala português; a leitura é que engana. O português europeu pronuncia «sc» antes de e e de i como dois sons, «x» mais «s», em «nascer» ou «piscina», e quem lê scena assim junta um s que não existe. Antes de a, o e u, são dois sons, s e k — e é aqui que pesa o hábito mais forte do português europeu, que diz «x» em todo o s antes de consoante surda: «escola», «pesca», «festa». Em italiano, esse s é um s limpo, sibilante: pesca não é o «péxca» do português, e com o «x» fica perigosamente perto de pesce. O português também junta uma vogal antes do s inicial («escola», «esquema»); o italiano não, e scuola começa diretamente pelo s. As letras auxiliares funcionam como com c e g: o h mantém o som duro (schema começa por «sk»), e um i entre sc e outra vogal amacia o grupo e em geral não se ouve (lasciare, sciopero); só se ouve quando pertence à própria palavra, como em sciare, que vem de sci, o esqui. Entre vogais, o som é sempre longo.

UmasignificaA outrasignifica
pesceo peixepescao pêssego; a pesca

Il pesce qui è ottimo.Aqui o peixe é ótimo.

pesce soa quase como «peixe»; pesca tem um s limpo seguido de k, sem o «x» da «pesca» portuguesa. E quer dizer tanto o pêssego como a pesca.
scenaa cenaschemao esquema

La scena finale dura dieci minuti.A cena final dura dez minutos.

Nenhuma das duas tem e no início: scena começa por «x», schema por «sk».
sciareesquiarscuolaa escola

In inverno andiamo a sciare.No inverno vamos esquiar.

Em sciare o i ouve-se, porque pertence a sci, o esqui: «xi-a-re». scuola começa por um s sibilante e um k, sem vogal à frente.
usciresairoscuroescuro

Non voglio uscire adesso.Não quero sair agora.

Antes de i, sc é «x»; antes de u, s mais k: uscire diz-se «uxire», e oscuro tem o s sibilante que falta a «escuro».

Onde cai o acento

A escrita não o mostra, exceto no fim da palavra.

O que acontece: A maior parte das palavras italianas é grave, acentuada na penúltima sílaba, e não leva acento gráfico, tal como em português. As agudas terminadas em vogal levam-no sempre: città, caffè, perché. Até aqui, as regras coincidem. A diferença está nas esdrúxulas: o português marca-as todas («música», «lâmpada») e o italiano não marca nenhuma. O leitor português aplica a sua regra, vê uma palavra terminada em vogal e sem acento e fá-la grave: diz «telefóno» por telefono e acentua abitano no bi, quando se diz Á-bi-ta-no. Não há outro remédio senão aprender o acento destas palavras uma a uma. Há um segundo hábito, próprio do português europeu, que pesa tanto como o primeiro: as vogais átonas quase desaparecem. O o final soa u, o e final quase se apaga, e «telefone» fica reduzido a pouco mais do que as consoantes. Em italiano, todas as vogais se pronunciam inteiras, também as átonas: sette termina num e claro, e nonno num o que não é u. Por fim, o acento gráfico é de outra espécie: o grave de città não marca uma crase, como o «à» português, marca onde se carrega; e no e, o grave e o agudo dizem também se a vogal é aberta (è) ou fechada (perché). Nalguns pares, só o acento decide qual é a palavra, e a escrita não ajuda.

UmasignificaA outrasignifica
ancoraainda; outra vezàncoraa âncora

Non è ancora arrivato.Ainda não chegou.

àncora acentua-se como a «âncora» portuguesa; ancora, «ainda», carrega no co. O acento só se escreve onde há risco de confusão, e nem sempre.
metaa meta, o destinometàa metade

Abbiamo fatto solo metà del lavoro.Só fizemos metade do trabalho.

Quando o acento cai na última sílaba, escreve-se, e é obrigatório, não enfeite.
subitojá, imediatamentesubìtosofrido (particípio)

Vengo subito, aspettami.Vou já, espera por mim.

Acentua-se como «súbito», mas como advérbio quer dizer «já». subìto, com o acento no bi, é o particípio de subire, sofrer.
telefonoo telefonetelefonòtelefonou

Telefonò tre volte senza risposta.Telefonou três vezes sem resposta.

O «telefone» português carrega no fo; telefono carrega no le, e telefonò, com acento escrito, na última sílaba.
abitanomoram, habitamabitaremorar, habitar

Abitano vicino alla stazione.Moram perto da estação.

Á-bi-ta-no, com o acento na primeira sílaba, como abita: o acento fica onde está no singular, e não no bi, como em «habitam».
papào papápapao papa

Mio papà lavora in banca.O meu pai trabalha num banco.

O mesmo par que em português, «papá» e «papa», com o acento no mesmo sítio.

Ouvir e distinguir

Diz-se uma das duas palavras e indica qual. Duas hipóteses significam que ao acaso se acerta metade. Por isso cada par sai duas vezes — uma por palavra. Quem não tem o som fica nos cinquenta por cento entre as duas, e isso vê-se; um acerto isolado não se veria.