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Pronúncia do espanhol: 34 pares mínimos para ouvir

Um par mínimo são duas palavras que diferem num único som. Quem as distingue tem o som. Quem não, diz durante anos a mesma palavra e estranha que lhe perguntem o que queria dizer.

Esta lista é mais curta do que as habituais porque segue uma única regra: só contém as distinções que não existem em português. Uma diferença que a própria língua já faz não custa esforço; as que não faz são as que vale a pena praticar.

Por isso cada um dos 9 grupos diz primeiro o que faz em vez disso quem fala português. É essa a verdadeira informação; as palavras abaixo são as provas. Aqui não há transcrição fonética: quem conhece os símbolos não precisa desta página, e a quem não os conhece não dizem nada.

r contra rr

O contraste é o do português; o som forte, não.

O que acontece: O português conhece esta oposição e usa-a da mesma maneira: «caro» e «carro», «coro» e «corro», com o r fraco de uma só batida entre vogais e o forte no início da palavra e depois de n, l ou s. Até a distribuição coincide: Roma, honra e Israel levam o som forte nas duas línguas. A diferença está no próprio som forte. Em Portugal ouve-se sobretudo no fundo da garganta; em espanhol é uma vibração da ponta da língua logo atrás dos dentes de cima, várias batidas seguidas. Dito à portuguesa, perro não se confunde com pero, mas soa claramente estrangeiro e aproxima-se da jota espanhola, que se faz nessa mesma zona da boca. Quem ainda faz o r forte com a ponta da língua, como se ouve em algumas regiões, já tem o som certo.

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peromasperroo cão

Quiero venir, pero no puedo.Queria vir, mas não posso.

O par mínimo mais frequente da língua, e as duas palavras aparecem em quase todas as conversas.
carocaro (de preço)carroa carroça; o automóvel (América Latina)

Este hotel es demasiado caro.Este hotel é demasiado caro.

Em Espanha o automóvel é o coche; o carro é a carroça ou o carrinho das compras. Na América Latina, sim, é o automóvel.
coroo corocorroeu corro

Canta en el coro de la iglesia.Canta no coro da igreja.

O português tem o mesmo par, com o mesmo sentido; muda apenas o som do r forte.
ceroo zerocerroo monte, a colina

Ganamos dos a cero.Ganhámos dois a zero.

paraparaparraa parreira

Este regalo es para ti.Este presente é para ti.

O para espanhol diz-se com as duas vogais inteiras, sem o encolher que o português lhe dá na fala corrente.

n contra ñ

O ñ é o nh de «sonho», com outra letra.

O que acontece: O som do ñ existe em português: é o de «vinho», «sonho», «banho». Só a escrita muda, e a correspondência é regular — «sonhar» e soñar, «penha» e peña, «Espanha» e España. O que exige atenção é o que está à volta. Em português europeu, um a tónico antes de consoante nasal fecha-se e fica abafado, como em «cana» ou «cama»; em espanhol continua a ser um a aberto e claro, sem nenhuma ressonância nasal, tanto em cana como em caña. E há uma armadilha de vocabulário: o «ano» português escreve-se año em espanhol, e esquecer o til não é um pormenor de ortografia — ano é outra palavra, e nada tem a ver com o calendário.

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canao cabelo brancocañaa imperial (cerveja); a cana

Nos tomamos una caña en la terraza.Bebemos uma imperial na esplanada.

A «cana» portuguesa é a caña espanhola; a cana espanhola é um cabelo branco.
sonarsoar, tocarsoñarsonhar

El teléfono empezó a sonar a medianoche.O telefone começou a tocar à meia-noite.

O nh português e o ñ espanhol são o mesmo som: «sonhar», soñar.
penaa pena, o desgostopeñao penedo, a penha

Qué pena que no puedas venir.Que pena não poderes vir.

Qué pena diz-se como em português, e a peña é a «penha» portuguesa.
monoo macacomoñoo carrapito (penteado)

En el zoo vimos un mono muy grande.No jardim zoológico vimos um macaco muito grande.

Em Espanha mono também quer dizer «giro», dito de uma pessoa ou de uma coisa.

s contra z e c

Em Espanha dois sons, na América Latina um só.

O que acontece: Aqui o falante de português tem mais hábitos a desfazer do que sons a aprender. Primeiro, o s entre vogais: em português soa como z («casa», «mesa»); em espanhol é sempre surdo, e casa diz-se com o s de «sol». Segundo, o s no fim da sílaba: o português europeu chia-o («mas», «festa»), o espanhol não, e las casas leva dois s simples, sem som de x. Terceiro, as letras z e c antes de e ou i: no centro e no norte de Espanha pronunciam-se com a ponta da língua entre os dentes, como o th do inglês «think», um som que o português não tem. O português distingue «casa» de «caça» pela voz do s; o espanhol peninsular distingue casa de caza pelo sítio da língua. Na Andaluzia, nas Canárias e na América Latina o z soa como o s, e essa pronúncia também é correta — desde que o s seja surdo.

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casaa casacazaa caça

Nuestra casa está al final de la calle.A nossa casa fica ao fundo da rua.

O português separa «casa» e «caça» pela voz do s; o espanhol de Espanha separa casa e caza pelo sítio da língua. Na América Latina, na Andaluzia e nas Canárias soam iguais.
cosercosercocercozer

Mi abuela sabía coser muy bien.A minha avó sabia coser muito bem.

Em português, «coser» e «cozer» dizem-se da mesma maneira; em espanhol peninsular não: coser leva um s surdo, cocer a língua entre os dentes.
abrasarabrasar, queimarabrazarabraçar

El sol abrasa a mediodía.Ao meio-dia o sol queima.

O português distingue «abrasar» e «abraçar» pela voz do s; em espanhol o s de abrasar é surdo, e a diferença passa para o z.
siena têmporaciencem

Pagué cien euros por el billete.Paguei cem euros pelo bilhete.

l contra ll

O ll não é um l duplo, e o l fica sempre claro.

O que acontece: O português não escreve ll, e a tentação é lê-lo como um l simples: pollo passa a polo, malla a mala. Na maior parte de Espanha e da América Latina o ll soa como o y: um i tenso, quase fricativo, mais apertado do que o de «iate». A pronúncia antiga, ainda viva em algumas zonas, é igual ao lh de «filho», e também está certa. A outra dificuldade é o l simples. Em português europeu o l é escuro, com a língua recuada, e sobretudo no fim da sílaba: «sol», «mal», «Portugal». O l espanhol é claro em todas as posições, com a ponta da língua à frente, junto aos dentes — sol, papel, mal. A diferença é pequena e faz boa parte do sotaque.

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poloo polo; o gelado de paupolloo frango

De segundo, pollo con patatas.Como prato principal, frango com batatas.

malamámallaa malha, a rede

La comida no estaba mala.A comida não estava má.

A «mala» portuguesa é a maleta espanhola; mala é só o feminino de malo, «mau».
calaa enseadacallacala-se (ele, ela)

Nos bañamos en una cala pequeña.Tomámos banho numa pequena enseada.

O «calar» português escreve-se com ll em espanhol, callar; cala, com um l só, é a enseada.
holaoláollaa panela

Hola, ¿qué tal?Olá, tudo bem?

O h é mudo, como em português: hola e olla distinguem-se só pelo l, embora no papel pareçam muito diferentes.

e contra i

Cinco vogais, e nenhuma se perde.

O que acontece: É aqui que está a maior diferença entre as duas línguas. O português europeu reduz as vogais átonas: o e final de «ponte» quase desaparece, o primeiro de «pequeno» mal se ouve, e o a final de «mesa» fica fechado e breve. O espanhol não reduz nada. Cada uma das suas cinco vogais soa sempre igual, tónica ou átona, e mesa acaba num a tão claro como o primeiro. Quem leva o hábito português para o espanhol engole sílabas inteiras — pesado soa quase «psado» —, e o ouvinte fica sem as vogais de que precisa para distinguir peso de piso ou vender de venir. Ao contrário, o e aberto e o e fechado do português («sé» e «sê») não têm correspondência: o espanhol tem um só e, médio. A regra é simples e custa: pronunciar cada vogal como se fosse tónica.

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mesaa mesamisaa missa

Las llaves están en la mesa.As chaves estão em cima da mesa.

Em português o a final de «mesa» fica fechado e breve; em espanhol ouve-se tão claro como o primeiro, e o s é surdo.
pesoo pesopisoo apartamento; o andar

Vivimos en un piso pequeño.Vivemos num apartamento pequeno.

peso termina em o, não em u, e o s do meio é surdo.
peromaspiroa fuga (calão)

Es tarde, pero todavía hay luz.É tarde, mas ainda há luz.

O mesmo pero de cima, aqui contra outra vogal: uma palavra pode estar em dois grupos.
vendervendervenirvir

Quieren vender el coche.Querem vender o carro.

Não é um verdadeiro par mínimo, mas é o erro de audição mais comum no início: é a terminação que decide o verbo, e o primeiro e de ambos não se pode engolir.

o contra u

O o final continua a ser o.

O que acontece: O mesmo problema, um andar abaixo. Em português europeu um o átono passa a u: «como» diz-se «comu», «comer» diz-se «cumer». Em espanhol o o átono continua a ser o, e é justamente no fim da palavra que estão as terminações dos verbos: hablo (falo) e habló (falou) distinguem-se pelo acento, mas ambos acabam num o bem redondo, nunca num u. Dito à portuguesa, cada o final soa a erro, e as terminações perdem a nitidez de que o ouvinte precisa. O o tónico também é outro: o português tem um aberto («avó») e um fechado («avô»); o espanhol tem um só, médio e breve, e distingue-o do u sem hesitar — rota e ruta, poso e puso são palavras diferentes.

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posoo sedimento, a borrapusopôs (ele, ela)

Puso las llaves en la mesa.Pôs as chaves em cima da mesa.

rotapartida, estragada (fem.)rutaa rota, o itinerário

La ventana está rota.A janela está partida.

Falso amigo: a «rota» portuguesa é a ruta espanhola; rota, em espanhol, quer dizer «partida».
bollao pão doce (regionalismo)bullaa barulheira, a algazarra

Había mucha bulla en la plaza.Havia muito barulho na praça.

comocomo; eu comocumbreo cume, o topo

Como en casa todos los días.Como em casa todos os dias.

Não é um verdadeiro par mínimo: serve para ouvir o o inteiro de como, que em português soaria u, ao lado do u de cumbre.

b contra p

O b e o p não são o problema; o v é.

O que acontece: O p espanhol é seco, sem sopro, tal como o português, e para um falante de português beso e peso distinguem-se sem esforço. A dificuldade está ao lado: em espanhol o b e o v são o mesmo som. vaca e baca (o porta-bagagens do tejadilho) soam exatamente iguais, e o v português, feito com o lábio contra os dentes, não existe. Depois de uma pausa e depois de m ou n é um b pleno; entre vogais os lábios não chegam a fechar, e sai um som brando — o mesmo b suave que o português europeu já faz em «cabo» ou «sábado». Por isso o b entre vogais não custa; o que denuncia o sotaque é o v dito à portuguesa em vino, vaca ou vamos.

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besoo beijopesoo peso

Le dio un beso en la mejilla.Deu-lhe um beijo na cara.

balaa balapalaa pá

Necesitamos una pala para la nieve.Precisamos de uma pá para a neve.

Nada a ver com a pala do boné: pala, em espanhol, é a pá.
batao roupão; a batapataa pata

El perro se hizo daño en una pata.O cão magoou-se numa pata.

d contra t

Entre vogais o d suaviza-se, como em português.

O que acontece: Este é dos contrastes mais fáceis para quem fala português europeu. O t é dental e seco nas duas línguas, e o d entre vogais suaviza-se em ambas: o d de cada, nada ou todo é o mesmo som brando de «nada» ou «cada» em português, com a língua a roçar os dentes sem fechar. Há duas coisas a vigiar. A primeira é o fim da palavra, onde o português nunca tem d e o espanhol tem muitos: Madrid, usted, ciudad. Esse d final é fraquíssimo, quase mudo, e não deve explodir nem levar vogal de apoio. A segunda são as vogais à volta dele: todo acaba em o e não em u, nada num a aberto. Muitos espanhóis deixam cair o d na terminação -ado quando falam depressa; é língua falada, não um modelo para começar.

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dosdoistosa tosse

Tengo tos desde el fin de semana.Estou com tosse desde o fim de semana.

cadacadacataa prova (de vinhos)

Cada semana vamos al mercado.Todas as semanas vamos ao mercado.

O d de cada é o d brando entre vogais, o mesmo que o português europeu costuma fazer; o t de cata fica seco.
damaa dama, a senhoratamapalavra que não existe

La dama del cuadro lleva un vestido azul.A senhora do quadro traz um vestido azul.

Um par com um lado vazio, de propósito: quem não faz a diferença não diz outra palavra, não diz nenhuma.

g contra j

Um g duro ou um som raspado na garganta.

O que acontece: O j, e o g antes de e ou i, são em espanhol o mesmo som: uma fricção áspera no fundo da boca, que o português não tem. O mais próximo que um falante de Lisboa conhece é o seu próprio r forte, o de «carro», feito quase no mesmo sítio — só que sem voz, apenas ar raspado. A armadilha é que muitas destas palavras se escrevem como em português: gente, gesto, jarro, justo convidam ao som de «janela», que em espanhol não existe. Antes de a, o e u o g é duro, como em português, e a grafia funciona da mesma maneira: guerra e guitarra têm um u que não se pronuncia, tal como «guerra» e «guitarra». Onde o u deve ouvir-se, o espanhol escreve-lhe um trema, que o português já não usa: pingüino.

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gatoo gatojarroo jarro

El gato duerme en el sofá.O gato dorme no sofá.

O «jarro» português escreve-se igual, mas em espanhol o j é o som raspado da garganta, não o de «janela».
guerraa guerrajergao jargão, o calão

La guerra terminó hace muchos años.A guerra acabou há muitos anos.

Como em português, o u de guerra não se pronuncia: está lá só para o g continuar duro.
genteas pessoas, a genteguantea luva

Había mucha gente en la plaza.Havia muita gente na praça.

Escreve-se como em português e não se diz como em português: o g de gente é o som raspado da jota. Em guante o u ouve-se, porque vem um a a seguir.

Ouvir e distinguir

Diz-se uma das duas palavras e indica qual. Duas hipóteses significam que ao acaso se acerta metade. Por isso cada par sai duas vezes — uma por palavra. Quem não tem o som fica nos cinquenta por cento entre as duas, e isso vê-se; um acerto isolado não se veria.