Para ler se quiseres — não é matéria para aprender
O alemão: um pequeno retrato
De onde vem o alemão, onde se fala hoje, como se escreve e o que costuma surpreender quem chega a ele a partir do português.
- Família
- Indo-europeia, ramo germânico ocidental
- Escrita
- Alfabeto latino, mais ä, ö, ü e ß
- Língua oficial em
- Alemanha, Áustria, Suíça, Liechtenstein, Luxemburgo e Bélgica
- Na União Europeia
- A língua materna com mais falantes
- Parentes próximos
- Neerlandês, luxemburguês, inglês, línguas escandinavas
- Marca de família
- Todos os substantivos com maiúscula
De onde vem
O alemão é uma língua germânica, tal como o inglês, o neerlandês, o dinamarquês, o sueco e o norueguês. Todas descendem de uma língua comum que nunca foi escrita e que só se conhece por reconstrução, a partir daquilo que as filhas têm em comum. O português, pelo contrário, vem do latim: é um primo mais afastado, do mesmo grande tronco indo-europeu.
O que separou o alemão dos seus vizinhos mais próximos foi uma mudança de sons que começou no sul a partir do século VI, mais ou menos. Onde o inglês e o neerlandês guardaram um t, um p ou um k, o alemão passou a dizer ss, pf ou ch: water é Wasser, apple é Apfel, make é machen. Quem conhece um pouco de inglês reconhece muitas palavras alemãs assim que aprende a desfazer essa mudança.
A história em poucas etapas
Os linguistas dividem a história em quatro fases. O alto alemão antigo, mais ou menos entre 750 e 1050, chegou até nós sobretudo em textos de mosteiros. O alto alemão médio, até meados do século XIV, é a língua da poesia de corte e da epopeia dos Nibelungos, por volta de 1200.
Segue-se o alemão moderno inicial, e com ele duas forças que mudaram tudo: a imprensa de Gutenberg, em Mainz, a meio do século XV, e a tradução da Bíblia por Martinho Lutero, cujo Novo Testamento saiu em 1522. Livros que circulavam por todo o território precisavam de uma língua escrita que todos entendessem, e foi assim que se formou, devagar, uma norma por cima dos dialetos.
A partir do século XVII fala-se de alemão moderno. Os gramáticos fixaram regras, e em 1880 Konrad Duden publicou o dicionário ortográfico que ainda hoje leva o seu nome. O país só se unificou politicamente em 1871 — muito depois de a língua escrita já ser comum.
Onde se fala hoje
O alemão é a língua materna mais falada da União Europeia. É oficial na Alemanha, na Áustria e no Liechtenstein, é uma das quatro línguas nacionais da Suíça (com o francês, o italiano e o romanche), uma das três do Luxemburgo e uma das três da Bélgica, onde se fala numa pequena região do leste. Há ainda comunidades de língua alemã no norte de Itália, na Europa de Leste e nas Américas.
Não há um só alemão padrão, mas três variantes com o mesmo estatuto: a da Alemanha, a da Áustria e a da Suíça. Na Áustria, janeiro é Jänner e o tomate pode ser Paradeiser; na Suíça, a bicicleta é Velo e não se escreve ß, usa-se sempre ss.
Por baixo da língua padrão continuam vivos muitos dialetos, do bávaro ao suábio e ao baixo-alemão do norte. Na Suíça alemã, o dialeto é a língua do dia a dia para quase toda a gente, e o alemão padrão fica sobretudo para a escrita, a escola e as notícias.
Como se escreve
O alemão usa o alfabeto latino, mas durante séculos foi impresso numa letra gótica angulosa, a Fraktur, e escrito à mão numa caligrafia própria que hoje quase ninguém consegue ler. Só a meio do século XX a letra redonda que conheces se impôs de vez.
Os dois pontos de ä, ö e ü eram originalmente um pequeno e escrito por cima da vogal, que com o tempo se reduziu a dois traços. O ß, chamado Eszett, nasceu da junção de dois sinais numa só letra; desde 2017 existe oficialmente também em maiúscula.
Desde o século XVII, mais ou menos, todos os substantivos se escrevem com maiúscula: der Tisch, die Freiheit, das Essen. Das grandes línguas europeias, o alemão é a única que mantém esse hábito, e ele ajuda muito a ler: vês logo onde está o substantivo. A última grande reforma ortográfica, de 1996, mudou por exemplo daß para dass.
Palavras que viajaram
O alemão emprestou ao mundo palavras para coisas que pareciam suas: Kindergarten, Rucksack, Zeitgeist, Kitsch, Angst. Também o português tem algumas, chegadas por caminhos mais ou menos diretos: «valsa», «quartzo», «cobalto» e «níquel» têm origem alemã.
No sentido contrário, o alemão recebeu primeiro muito latim, com os romanos e depois com a Igreja: Fenster (janela), Mauer (muro) e Wein (vinho) vêm daí. Nos séculos XVII e XVIII, a moda era o francês, que deixou Restaurant ou Portemonnaie. Hoje é a vez do inglês: das Meeting, downloaden.
Às vezes o empréstimo ganha vida própria. O telemóvel chama-se em alemão das Handy, uma palavra com ar inglês que nenhum falante de inglês usa nesse sentido.
O que surpreende quem fala português
Primeiro, os três géneros: além do masculino e do feminino há o neutro, e a distribuição nem sempre segue a lógica — a rapariga, das Mädchen, é neutra, porque a terminação -chen manda mais do que o sentido. Depois, os quatro casos, que mudam a forma do artigo conforme a função da palavra na frase.
Também a ordem das palavras pede habituação. Na frase principal o verbo conjugado fica em segundo lugar, mas numa oração subordinada vai para o fim: Ich weiß, dass er heute kommt. E as palavras compostas juntam-se sem espaço: Handschuh, a luva, é à letra um «sapato de mão».
A boa notícia: o alemão escreve-se quase como se diz, e muitas palavras de cultura são parecidas com as nossas — Musik, Theater, Problem. E a distinção entre du e Sie funciona mais ou menos como entre «tu» e «o senhor»: quem fala português já traz esse instinto de casa.