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C2StoryTravel3 min

O comboio que para em todas

A narrator deliberately takes the slowest train in the country — and reflects on speed, arriving and what lies in between.

An essay-like travel text. Watch the simple form of the mais-que-perfeito (fizera, deixara), formal pronouns (a si próprio, consigo) and emphasis through word order (é … que).

Há uma linha, no interior do país, onde ainda circula um comboio que para em todas as estações. Leva quase cinco horas a fazer um percurso que de carro se faz em duas, e quem o apanha por gosto, e não por necessidade, é olhado pelos outros passageiros com um interesse que não chega a ser desconfiança.

Fiz esta viagem no outono passado, sem outra razão que não fosse a de repetir uma viagem que o meu avô fizera muitas vezes, quando ia à feira vender o que a terra lhe deixara. Esperava encontrar uma espécie de museu em movimento. Encontrei outra coisa.

Em cada paragem, entrava e saía gente que se conhecia. Uma senhora com um saco de laranjas para a filha, um estudante que dormiu da primeira à última estação, dois homens que falaram, durante três paragens seguidas, se ia ou não chover no fim de semana. Ninguém olhava para o telemóvel mais do que o necessário. Não por virtude, mas porque, a meio do percurso, a rede desaparecia, e com ela a sensação de se estar noutro lado.

É precisamente essa a coisa que uma viagem lenta nos devolve: a obrigação de estar onde se está. Num voo, o espaço entre a partida e a chegada é uma espécie de parêntese, um tempo que não conta. Num comboio que para em todas, esse espaço é a própria viagem. A paisagem não passa à janela como um filme; vai mudando devagar, e quem a vê mudar acaba, sem dar por isso, por mudar um pouco também.

Não quero com isto fazer o elogio do que é lento, que é um género em si próprio e tem os seus exageros. Querer chegar depressa não é um defeito moral; é, muitas vezes, a única forma de chegar a horas a uma vida que não nos espera. Mas talvez valesse a pena, de vez em quando, perguntar a nós próprios para onde vamos tão depressa, e o que deixamos de ver pelo caminho.

Quando cheguei, já de noite, o revisor disse-me boa noite pelo nome. Na terceira estação, falámos durante muito tempo. Foi só aí que percebi que, de todas as viagens que fizera nesse ano, era esta a única que guardaria na memória com todos os pormenores.

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Comprehension questions

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1. Quanto tempo demora o comboio em comparação com o carro?

2. Porque fez o narrador esta viagem?

3. Porque quase ninguém olhava para o telemóvel?

4. O que nos devolve, segundo o texto, uma viagem lenta?

5. O que diz o narrador sobre querer chegar depressa?