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O comboio que para em todas
A narrator deliberately takes the slowest train in the country — and reflects on speed, arriving and what lies in between.
An essay-like travel text. Watch the simple form of the mais-que-perfeito (fizera, deixara), formal pronouns (a si próprio, consigo) and emphasis through word order (é … que).
Há uma linha, no interior do país, onde ainda circula um comboio que para em todas as estações. Leva quase cinco horas a fazer um percurso que de carro se faz em duas, e quem o apanha por gosto, e não por necessidade, é olhado pelos outros passageiros com um interesse que não chega a ser desconfiança.
Fiz esta viagem no outono passado, sem outra razão que não fosse a de repetir uma viagem que o meu avô fizera muitas vezes, quando ia à feira vender o que a terra lhe deixara. Esperava encontrar uma espécie de museu em movimento. Encontrei outra coisa.
Em cada paragem, entrava e saía gente que se conhecia. Uma senhora com um saco de laranjas para a filha, um estudante que dormiu da primeira à última estação, dois homens que falaram, durante três paragens seguidas, se ia ou não chover no fim de semana. Ninguém olhava para o telemóvel mais do que o necessário. Não por virtude, mas porque, a meio do percurso, a rede desaparecia, e com ela a sensação de se estar noutro lado.
É precisamente essa a coisa que uma viagem lenta nos devolve: a obrigação de estar onde se está. Num voo, o espaço entre a partida e a chegada é uma espécie de parêntese, um tempo que não conta. Num comboio que para em todas, esse espaço é a própria viagem. A paisagem não passa à janela como um filme; vai mudando devagar, e quem a vê mudar acaba, sem dar por isso, por mudar um pouco também.
Não quero com isto fazer o elogio do que é lento, que é um género em si próprio e tem os seus exageros. Querer chegar depressa não é um defeito moral; é, muitas vezes, a única forma de chegar a horas a uma vida que não nos espera. Mas talvez valesse a pena, de vez em quando, perguntar a nós próprios para onde vamos tão depressa, e o que deixamos de ver pelo caminho.
Quando cheguei, já de noite, o revisor disse-me boa noite pelo nome. Na terceira estação, falámos durante muito tempo. Foi só aí que percebi que, de todas as viagens que fizera nesse ano, era esta a única que guardaria na memória com todos os pormenores.
No interior do país, ainda há um comboio que para em todas as estações. Leva quase cinco horas a fazer um percurso que de carro se faz em duas.
Fiz esta viagem no outono passado. Queria repetir uma viagem que o meu avô fizera muitas vezes, quando ia à feira.
Em cada paragem, entrava e saía gente que se conhecia. Quase ninguém olhava para o telemóvel, porque a meio do percurso, a rede desaparecia.
Uma viagem lenta dá-nos a obrigação de estar onde se está. Num avião, o tempo entre a partida e a chegada não conta. Num comboio lento, esse tempo é a própria viagem. A paisagem muda devagar, e nós também.
Querer chegar depressa não é um defeito moral. Muitas vezes, é a única forma de chegar a horas. Mas às vezes vale a pena perguntar para onde vamos tão depressa.
Quando cheguei, o revisor disse-me boa noite pelo meu nome. De todas as viagens desse ano, era esta a única que guardaria na memória.
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Grammar in this text
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o meu avô fizera muitas vezes · a terra lhe deixara
The simple, written form of the mais-que-perfeito: fizera (= tinha feito), deixara (= tinha deixado). The simple form in -ra →
em si próprio · perguntar a nós próprios
Formal pronouns: em si próprio, perguntar a nós próprios; the clitic placed before the verb after que: a terra lhe deixara. The pronoun in elevated language →
É precisamente essa a coisa que · Foi só aí que percebi
Emphasis with é … que and fronting: É precisamente essa a coisa que, Foi só aí que percebi — like “it was only then that”. Subject after the verb →
The words from C2 up in this text
Not the hard words in general, but those at your level: all 1 of the 211 words in this text are at C2 or above. You will know everything else by the time you get here.
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to circulate
C2
The word lists for this text
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Comprehension questions
5 questions on the text. With each answer the sentence it comes from appears — a question whose answer you cannot find in the text tests nothing.
1. Quanto tempo demora o comboio em comparação com o carro?
Lê o primeiro parágrafo.
Procura a palavra « horas ».
Leva quase cinco horas a fazer um percurso que de carro se faz em duas
2. Porque fez o narrador esta viagem?
Lê o segundo parágrafo.
Procura a palavra « avô ».
repetir uma viagem que o meu avô fizera muitas vezes
3. Porque quase ninguém olhava para o telemóvel?
Lê o terceiro parágrafo.
Procura a palavra « rede ».
a meio do percurso, a rede desaparecia
4. O que nos devolve, segundo o texto, uma viagem lenta?
Lê o quarto parágrafo.
Procura o verbo « devolver ».
a obrigação de estar onde se está
5. O que diz o narrador sobre querer chegar depressa?
Lê o quinto parágrafo.
Procura « defeito moral ».
Querer chegar depressa não é um defeito moral